Felicidade foi-se embora?

Nostálgico como se deve à minha idade (já passei dos 40), um pouco além porque revivo e comparo significativamente por conta de minhas dissertações sobre pessoas e cotidiano, estudos e filosofias, vi-me diante de tal questão: Felicidade foi-se embora? Para solucionar esta indagação (que eu diria metáfora, visto a palavra felicidade poder ser referência como sinônimo de dinheiro, sucesso, reconhecimento, poder, mas é só uma opinião própria que não deve ser considerada), cantada e encantada por Caetano Veloso, propus a mim mesmo um experimento usual, mas que não faço há mais de 10 anos: Uma visita ao centro de São Paulo. Relato-o abaixo:

 

A base desse experimento foi verificar se as pessoas que estão pelo centro da cidade estão felizes, destacando os porquês (sintetizados sob minha vã filosofia).

 

Os materiais utilizados foram minhas duas pernas (a me conduzirem), meus olhos (a observar), uma caneta e um papel (para anotações) e um coletivo (que serviu de apoio às minhas duas pernas, que só não me levariam à conclusão do trabalho).

 

Confesso que iniciei um pouco fora da hora do “rush”, pois acreditei que o coletivo estaria cheio, mas para minha surpresa, ao entrar, percebi que havia muitos lugares vazios (mesmo com algumas pessoas em pé, por opção) e todos os assentos reservados estavam disponíveis. Vi algumas pessoas que entravam e saiam pela mesma porta (imagino eu que devam ter esquecido a carteira em casa, mas o cobrador gentilmente sorria a cada uma delas). O motorista andava lentamente para que os mais idosos pudessem segurar-se. Tal conforto e harmonia me fez prosseguir radiante! E lá estava eu bem no centro, circulando por ruas e becos, entre antigas e modernas fachadas. Entre o belo e o maravilhoso.

Logo de cara notei a limpeza das ruas. Coisa de dar inveja a mais asseada senhora. As lixeiras, apesar de vazias, estavam todas em ordem, sincronizadas nos postes.

Depois verifiquei o valor de família vendo pais e filhos, juntos, deitados. Havia de ter sido uma noite muito agitada e feliz para terem pegado no sono antes de irem para as suas casas. Pode ser que tenham bebido algo alcoólico e por isso não puderam dirigir seus carros até em casa, ficando por ali até o efeito passar... Respeito ao próximo e às leis!

Já beirava a hora do almoço e resolvi comer um lanche. Não pude deixar de anotar sobre as pessoas se deliciando com churrasquinho grego, bem temperado, carne de ótima qualidade e suco à vontade. Irresistível não comer, quase uma iguaria.

Neste momento o que era para ser apenas um experimento estava tornando-se um sinônimo de prazer. Sentia-me muito seguro e passei inclusive a fotografar algumas coisas com meu celular. Artistas fazendo seus malabares, cantores com suas guitarras e caixas de som, verdadeiros atores encenando suas peças teatrais. Até algumas pessoas que trabalhavam estavam felizes e sorridentes. Também pudera; trabalhar em uma grande operadora de celular, que para ajudar as pessoas distribui gratuitamente chips de celular é, no mínimo, motivo de muito orgulho.

E continuei minha saga passando por prédios esplendorosos, de arquitetura antiga e toda intacta; vi carros com motoristas que paravam para as pessoas atravessarem a rua; bancas de jornais repletas de livros e revistas culturais; lojas com produtos de qualidade; ciclovias muito bem sinalizadas e muitos, muitos bustos, todos impecavelmente limpos, uma grande honra aos homenageados e seus descendentes. Até um homem que dramatizava um papel de estátua, imóvel por mais de 10 minutos em que observei, deu um leve sorriso.

 

Mas, não posso me furtar de relatar, vi uma pessoa que não estava feliz. Aliás, estava carrancuda, com pressa, no banco de trás de um carro preto, com placa preta onde se lia “Prefeitura Municipal”, rodando pelos calçadões. Nem todos são felizes! Mas a felicidade não foi embora... Obrigado senhor do carro, que nem sei o nome, pela sua dedicação! Tenho certeza que o senhor é responsável por tudo o que vi...

 

Ulisses Andrade